quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pesadelo


Queria permanecer em silêncio quando o grito no meu ouvido soa como faca cortante sobre a minha pele. Queria não saber gritar e ser passiva diante do instante de agonia que me foi conferida... por você? Ou foi pela loucura? Ou se não é loucura, o que é? Desejo? Tristeza em demasia? Queria saber não me importar com os seus sentimentos quando o que te fere faz também você querer ferir... queria saber perdoar. No entanto, eu também grito, e o sangue escorre do teu peito como tinta a cobrir meu rosto de vermelho e as lágrimas são sangue e o sangue é salgado como lágrimas... e o que me fere faz querer ferir a quem eu amo... Ou não amo? E tudo isso é loucura, desejo ou tristeza em demasia? E por que na noite está assim? Extremamente fria? Queria que você se importasse... Perdoa-me.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Pessoas Especiais

    Havia dois anos que eles não se viam. Cresceram juntos naquela escola. Eram melhores amigos. Nada mais além disso. Eles andavam de mãos dadas, torciam juntos nas gincanas, se abraçavam e choravam juntos sem medo ou vergonha de se emocionarem, porque às vezes, sentiam alegria demais, outras vezes, solidão.
    Fernando mudou de escola e nunca mais viu Jojô. Ele, sempre bem arrumado e ela, desconhecia os cuidados maternos. Ele sempre mais calmo, ela mais agitada. No entanto, Jojô se fechou. Não era mais a mesma menina. Não conversava com ninguém, não fizera amigos como Fernando. Tinha engordado muito e a pele estava tomada de espinhas. 
     Um dia, Fernando apareceu no meio da minha aula, na porta da sala. Como foi bom revê-lo:
     _ Fernando, que bom que você está aqui, que saudade!!!
     _ A Jojô está aí?
     _ Sim. Mas dormiu naquela carteira. Vai lá ver se ela acorda!
     Ele foi. Deu um toque na mesa e ela fez que não gostou. Ele bateu de novo e ela reclamou sem olhar quem é que estava batendo. Devia estar sonhando um sonho bom. Ele insistiu mais uma duas vezes  e disse:
     _ Sou eu, o Fernando!!
     Ela levantou a cabeça, esfregou os olhos e não o enxergou. Pegou os óculos e quando o viu, chorou. E eu também chorei. Eles se abraçaram com tanta pureza e alegria que tive que esconder meus olhos dos outros alunos. Mas a turma aplaudia aquele gesto tão espontâneo, a saudade, enfim, assassinada:
     _ Como você está bonita! Como você cresceu! Que roupa bonita! E o seu cabelo então... que bota linda que você está usando!
     Jojô não disse nada. Pegou a mão de Nando e os dois saíram para o recreio, abraçadinhos, como nos velhos tempos.