segunda-feira, 6 de junho de 2011

Levanta Poeira











"Quero meu forró morando na literatura e desenhando arquitetura na cultura popular"

Não tem algo que me fascina tanto quanto a cultura brasileira. Arte, música e literatura fazem parte da meu cotidiano e o que diz respeito ao Brasil corre no meu sangue como a história da minha própria vida. Viajar pelo Brasil e conhecer um pouco mais dessa cultura são algumas das coisas que mais amo fazer, assim como escrever sobre o que vi, vivi e conheci. Desta vez, estou em Aracaju, Sergipe, na casa de grandes amigos e, como é Junho, época das tradicionais festas juninas no Nordeste, não poderia deixar de apreciar melhor as quadrilhas da região.
Assim que cheguei aqui, sábado dia 04 de Junho, me encantei com as casas enfeitadas de bandeirinhas e balões de São João. O envolvimento dos sergipanos com as festas de junho é imenso e eu não imaginava quão interessante era isso. Soube, então, que haveria em Japaratuba, pequena cidade há 60 km de Aracaju, a final do concurso de quadrilhas Levanta Poeira. Conhecendo minha simpatia, meus amigos fizeram questão de me levar até lá para prestigiar o evento. Só por isso já valeu meu passeio, minha vinda até aqui.
Os dançarinos eram pessoas simples. Estampavam no rosto, além da maquiagem tão bem desenhada e cheia de brilhos, a ansiedade e o nervosismo pela apresentação que fariam. As roupas entregavam o talento artísitico, na confecção de cada escolha de tecido, do entermeio das cores, do brilho e dos babados que faziam girar as damas numa harmonia perfeita, num movimento que encanta quem está assistindo e contagia os nossos próprios quadris. A minha vontade era de me misturar aos grupos, arrumar um par e dançar também. Impossível. As coreografias eram muito bem ensaiadas e todos os pares formavam a combinação exata para a realização plena da quadrilha.
Para cada grupo participante, um cenário diferente, com chita, “boi da cara preta” e muita música, forró e percussão. Cada apresentação uma história, uma encenação. Os dançarinos se transformavam em atores: noivos, padres, cangaceiros e as cores do Brasil sempre em exaltação. Em cada rosto, um sorriso aberto, sincero, uma energia boa de quem sentia alegria. Alegria verdadeira, satisfação em estar ali dançando, não em busca apenas da vitória, mas participando com amor e devoção por sua cultura, como os velhos carnavalescos em dias de carnaval.
De máquina na mão, eu fotografava tudo, cada detalhe das roupas e acessórios, o cenário tão bem montado, o boi que se agitava no meio do salão. E os dançarinos pousavam pra mim como seu eu fosse levá-los para o mundo, com quem pedisse pra que eu divulgasse a sua arte, a sua música e a sua cultura, tão brasileira e tão pouco conhecida por nós brasileiros, costumados a computador, carne e celular.

Em Japaratuba, eu respirei arte, música e cultura brasileira de verdade, porque a simplicidade do brasileiro é isso, esse instante de alegria e cor que dança e canta em cantos desconhecidos e que me dá o prazer de fazer parte desse país tão mágico e tão bonito.

Alice Xavier

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Semana Santa



Quando criança, eu acompanhava minha avó nas andanças pela Igreja. Novenas, orações, visitas e procissões. Missas durante a semana, festas de Trindade, canções. Cresci nas catequeses, de Biblinha na mão, terço na cabeceira da cama, novenas de Natal e luz de vela. Aprendi a acreditar na morte de Jesus como minha e a renascer com Ele ao final das quaresmas. A queimar os velhos sentimentos e a ressurgir do fogo. O mito do sacrifício me percorria, me ungia o peito, e eu, devoção e lágrimas. Com o tempo, questionei a Igreja, seus dogmas, suas regras, seus rituais. Sofri quando questionei Deus, sua existência e todo a cosmogonia católica. Abandonei minha vó nas suas perigrinações até o Altar. No entanto, Deus estava presente em mim. Ainda buscava por Ele como meu sustento, meu ar, a força que me faltava, a solução para meus problemas. Talvez NEle eu encontrasse meu pai, ainda a me abençoar, a me amar. Conheci o espiritismo, o kardecismo e os centros de umbanda; os anjos e seus mistérios, os rituais do amor, as velas e os incensos; a universidade e os movimentos estudantis, a cerveja, o cheiro da droga que, felizmente, recusei a usar. Apaixonei-me tantas vezes e amei, e me embriaguei ouvindo The Doors, Live, Bush... as óperas, as músicas eruditas. A música enfim, tocada e cantada por mim num sentimento mórbido, mas sincero. Sofri por amor, por ser diferente na minha família, porque vivia num mundo que só a lua habitava. Mas eu lia os salmos e acreditava. Eu sentia Deus.
Conheci meu marido e com ele, sua crença, baseada nos mistérios da oaska e me perdi ali por um tempo, porque queria fazer parte de seu mundo, respeitar sua vontade. Perdi-me porque conheci a pior das depressões, das dores de cabeça, dos choques nos ouvidos, das alucinações. Perdoe-me quem acredita, amigos e familiares do meu marido, mas esta é a minha opinião. Um dia fui com meu padrinho - pai que ganhei ao longo da vida - ao alto do São Francisco na cidade de Goiás, dar início à procissão do fogaréu. A emoção que senti foi inigualável e é inesquecível. Ali descobri: meu mundo estava ali, minha crença, meu sangue com a tocha acesa entre a procissão. Por causa do chá, quase perdi meu filho pelas entranhas, com sangue e dor. Loucura, decidi por mim.
Depois de casada, com o Thiago nos braços, alívio. Abandonei a tal religião e voltei a ser eu. Voltei a frequentar a Igreja e passei a separar o que eu não concordava e o que eu não acreditava do que realmente valia pra mim. Com o tempo, meu marido me acompanhou, embora não tenha esquecido suas origens e nem é isso que eu desejo. Caminho com meus filhos pelo caminho de minha avó, porque não quero que eles conheçam os caminhos árduos por quais passei. E eles vem aprendendo a também ter fé, o que é alívio para uma mãe, que não poderá protege-los para sempre.
Enfim... Eu tenho fé e me orgulho disso. Levo comigo o que aprendi com o espiritismo, como a reencarnação e as coisas do espírito e, embora eu conheça os mitos e estude filosofia, história, literatura, ..., questionando sempre a veracidade da Bíblia e da Igreja, eu sei sentir Deus. E preciso da religião pra ter força, apoio, fé viva. Como disse, eu sei separar as coisas. Ainda me emociono no caminho das procissões e desejo morrer com Cristo pra renascer novamente, alguém melhor, mais feliz, com mais amor e menos preocupada comigo mesma, em busca da felicidade que está naquilo que Deus me ensinou: amar ao próximo como a mim mesma e a Deus, sobre todas as coisas.

Feliz Páscoa!

Alice Xavier

terça-feira, 19 de abril de 2011

Tem dias que a gente chora





Tem dias que bate uma tristeza. Sabe aquele sentimento porco de inutilidade? Então... fico pensando no que é que sou útil pro mundo, pra humanidade, para meus amigos e minha família. Frustração! Tem horas que a gente precisa de reconhecimento sim, de ser valorizada, pela sociedade, pela família. Acabo não acreditando que eu tenha feito as escolhas certas. E o que mais eu posso fazer? O que eu sei fazer? Nem eu sei. Tento descobrir fazendo o que gosto. E aí a velha baixa auto estima, ancorada no fim do meu poço, me faz pensar que fracassei. Acho que o que me sustenta é a minha qualidade de sonhadora, de quem tem esperança. Odeio o lugar de vítima e o consolo "tadinha". Quem me dera se minha voz pudesse alcançar a realização plena, mas já estou rouca de tanto gritar, aqui comigo mesma, pra minimizar essa insegurança medonha, na minha ânsia pela vida, pela vontade de transformar tudo, de fazer história. Mais uma vez eu continuo, sempre em frente, nessa estrada batida, tentando mudar o mundo e, de vez em quando, me virando do lado avesso pra recomeçar. E embora, com o tempo, a vida escorra pelos dedos, e os velhos sonhos se percam na poeira afora, tenho certeza que não foi por acaso, eu.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Massacre na Educação Brasileira


O Brasil hoje sofre mais um ato de violência. Poderia ter sido em um cinema, em um clube ou em qualquer outro lugar. Não foi a primeira vez e, infelizmente, não será a última. Psicopatas, psicóticos, bandidos, estupradores estão espalhados pelo mundo afora, convivem em sociedade, frequentam os mesmos lugares que nós. A violência no Brasil é escancarada e atinge nossas comunidades e nossas vidas e já não sabemos mais em quem confiar. Mas de quem é a culpa? Será que é só destes infelizes que atiram contra crianças indefesas? Não! A culpa maior é de um sistema corrupto, interesseiro e permissivo, que massacra diariamente população brasileira, às vezes até, silenciosamente, mascarando os verdadeiros assassinos, a verdadeira origem da crueldade humana. A educação brasileira, por exemplo, vem sendo massacrada. Em primeiro lugar, não há segurança nas escolas. Qualquer pessoa pode entrar e sair, bater ou matar, sem que se possa fazer nada. Os alunos são tratados como vítimas. Eles podem "tudo" e qualquer ato de violência por parte deles é tratada como "fruto de um trauma de infância", ou de suas péssimas condições de vida. Somos obrigados a "compreendê-los". Muitos roubam, agridem, perseguem,assediam e não são punidos por isso. Os professores são obrigados ao silêncio. Não podem "constranger" os estudantes e são ameaçados a perder o emprego. Os outros alunos também não denunciam. "Os pais cobram "notas", mas cobram dos professores, não dos filhos - que ironia. Quem neste mundo não tem traumas? Por que não são educados a lutar por seus objetivos, a respeitar e a enfrentar os seus próprios problemas? Por que a sociedade não consegue identificar esses assassinos como futuros "problemas" e por que as escolas tratam os alunos como "coitados", "sofredores" e "carentes", quando eles deveriam ser tratados como iguais, como cidadãos capazes de estudar, trabalhar e transformar? Por que os inocentes devem pagar por toda essa violência? Vivemos com medo, um medo gigantesco e racional. Até quando choraremos por esses "brasileirinhos", num país que tinha tudo pra ser um exemplo de humanidade? Porque o brasileiro, fruto dessa cultura educacional, é assim: solidário, mas até semana que vem, quando tudo cai no esquecimento e todos voltam pro seu mundinho fechado, cruzam os braços e deixam tudo como está.


Alice Xavier

terça-feira, 5 de abril de 2011

Meus leitores favoritos


Eu tinha medo de que meus filhos não gostassem de ler. Que não se encantassem com as palavras, as fantasias e todo universo imaginário. E por isso começei a ler pra eles, já na gestação. Contava-lhes histórias. Lia contos de fada e deixava Bach conduzir a trilha sonora, num radinho antigo próximo da cama. Já em meus braços, as histórias continuavam: reis, fadas, magos, bruxas, castelos e jardins. Pássaros encantados, deuses, heróis, beijos e sapos. O Luis se agitava, o Thiago se acalmava. Ambos gostavam.


Quando o primeiro aprendeu a escrever, fazia pequenas historias e as ilustravam em quadrinhos. Hoje, é apaixonado pela mitologia grega e lê fascinado as histórias que a contém. Um livro por dia, mesmo com déficit de atenção e difuculdade pra se concentrar na leitura. Admiro-o na sua vontade e disciplina, sempre com um livro na mão, deitado ou sentado no seu quarto, perdido em seu silêncio, encontrando um mundo só dele. Os pensamentos em processo criativo, crítico, em pleno vôo. O livro não lhe tira do jogo do computador, nem da prática de desenhar ou ouvir música. Surpreendi-me esses dias com uma fábula, escrita do próprio cunho e, mais tarde, lendo esse blog, rindo, me criticando e me elogiando, com franqueza e carinho.

O Thiago adora ouvir histórias. Adora os três porquinhos e a parte que o lobo entra pela chaminé e é surpreendido pela chama do fogo. Ama livros e histórias de bichos, leões e animais da África e não espera eu terminar a história. Levanta-se e interfere na narrativa com seus rugidos e bravas expressões, como se fizesse parte daquele mundo. Depois, ouve com atenção o fim do conto, e pede outro. Este ano, está começando a escrever. Procura as letras entre os letreiros e outdoors, os cartazes nas paredes, os livros, os jornais. Aprendeu a escrever seu nome. G só pertence a Guilherme, a nenhum outro pai. Escreveu com alegria ontem o meu nome. Mas a alegria maior era minha. A sua descoberta. A sua fascinação diante da astúcia das letras, da possibilidade de recriá-las. De repente, "e agora, mãe? Como se escreve Sarah, de tia Sarah?" Além de ser apaixonado pela matemática, e de gostar de brincar de contar, de cantar Raul Seixas, além dos bichos e dos amigos imaginários, como parte de sua realidade, ele é um leitor nato. Lê a vida com sensibilidade. Interroga-a com sabedoria.


Quem me dera ler como eles, os meus filhos. Talvez eu compreendesse melhor o mundinho deles e lhes fosse mais presente, de alguma forma. Que o mundo da leitura lhes permita entender quão importante é ser um bom leitor nos tempos de agora, pra que o preconceito e nem a ignorância façam parte de seu universo de imaginação, criação e construção da própria realidade. Para que sejam capazes de compreender o outro, respeitar as diferenças, iluminar, sonhar e amar.


Alice Xavier

domingo, 3 de abril de 2011

De todo coração

Imagem: Miguel Anselmo

No coração
a carne sangra
facas amoladas descansam sobre a mesa

de dentro dele escorre o vento
a derramar as folhas do último outono

da boca suspiram os sentimentos
todos dilacerados
salgados
pelas lágrimas que descaem pelo rosto

assim como os lagartos,
depois de um tempo
ele se regenera,
o coração

mas jamais será como antes:
dos cortes,
a cicatriz
e no peito, jaz pequenino.

Alice Xavier

domingo, 27 de março de 2011

De volta pra casa


Não era o tempo. E por mais que eu o desejasse, não deveria ser meu. Por um instante, parecia que eu o tinha em minhas mãos e, de repente, eu não tinha mais nada. Nem o perfume e nem a saudade. Volto pra casa com os sonhos na sacola. Recoloco-os na estante. Perdôo-me. Amanhã, um novo dia. E eu recomeço de onde parei.

domingo, 13 de março de 2011

Aonde está a sua felicidade??!!


Sei que parece papo de auto ajuda, mas é uma auto-reflexão diante de algumas coisas que estão acontecendo... reflitam comigo:
É bom a gente se perguntar de vez em quando: "aonde está a minha felicidade?" porque é pra lá que vamos, às vezes até, inconscientemente, fazendo as coisas corriqueiras da vida, cumprindo horários, obedecendo prazos, obrigações...
Não vivemos, talvez, certas ilusões? o corpo, o conforto, as amizades... O que conquistamos, quem conquistamos e por quê?! E o que é mais importante, ter ou ser? ser ou não ser? (that's the question!!!)
É certo que o que é bom pra mim não é o mesmo pra você, por isso a resposta a essa pergunta é única e pessoal, mas também imprescindível. Não seriam as depressões e as angústias frustrações por algo que se deseja tanto e não se tem? Materiais ou não, objetos de nossa busca constante, frutos de nosso conceito de felicidade?
Alguns desejam ir para os Estados Unidos, por exemplo. Dizem que lá terão mais conforto, mais respeito, mais dinheiro. Largam família, amigos e partem em busca da "felicidade". Outros querem um corpo perfeito, sempre encontram uma gordurinha a mais pra querer uma nova lipo, mais uma correção, mais malhação. Há aqueles que querem poder, outros querem fama e isso e aquilo e aquilo outro. E fazem desse objetivo a fonte da felicidade.
E se não for?? E se chegar lá e conseguir aquilo que tanto quis e não encontrar felicidade?? Será que paramos pra pensar nisso??! E se não conseguir, cadê a felicidade?
Acho que os objetivos e os planos e as metas e as vontades e os desejos não deveriam ser "a felicidade". Porque felicidade também é aqui e agora, onde estou, com quem estou, o que estou fazendo.
Não quero a profissão que estou agora, mas se eu não der o melhor de mim, que terá valido o dia de hoje, esse dia tão ímpar que não volta mais? E tudo o que desperdicei, dinheiro, força, voz... nada foi tão importante assim?
Por um outro ângulo, e todas as latinhas jogadas na rua, a água que eu derramei a mais na pia, o beijo sem graça que eu dei , o fora tão fora de hora, a grosseria, a falsidade... não os colherei no futuro juntos com o meu objetivo final? Porque sabemos disso: todas as catástrofes são consequências dos nossos próprios atos. As naturais, as pessoais, as sociais... E a gente querendo, querendo, querendo... mais, mais e mais...
Eu quero uma paz tão simples, filhos perto de mim, marido, minha mãe, minha vó, minhas irmãs, minhas tias, meus primos... quero publicar livros, pintar meus anseios, minha alegria, minha dor... escrever história, trabalhar tranquilo, ler livros, bordar... fazer o doutorado, publicar artigos, defender teses... quero emagrecer, me sentir bem com o corpo... ter mais uma profissão, criar criar criar...No entanto, não posso por aí minha felicidade. Tudo isso faz parte da minha vida como faz parte a dor, a perda, o sonho... a alegria, a vitória, o caminho.
Sou feliz com as travessuras, as descobertas, as benfeituras dos meus filhos, as apresentações na escola, a alegria tão sincera deles... sou feliz com o carinho do meu marido, a gente poder conversar todo dia, dormir abraçado, a reconciliação num momento de discórdia, de mágoa. Sou feliz com meus amigos, com os velhos, com os novos, com a possibilidade ser feliz ao lado deles, de rir, de descobrir de se descobrir. Sou feliz com minha família, mesmo minhas irmãs sendo tão diferentes de mim, elas são tão essenciais na minha vida, sou tão feliz por ser parte delas. Sou feliz por ter vó de 87 anos, tão viva, tão engraçada, tão mãe quanto minha mãe...
A minha felicidade não está além do hoje, naquilo que ainda quero pra mim. Serei mais feliz sim no dia em que eu conseguir tudo o que busco, mas continuarei feliz na mesma vidinha de sempre, com o meu jeito só meu de ser, mudando no que precisa mudar, crescendo no que preciso crescer, vivendo o que eu devo viver. Sempre com esperança, buscando força pra levantar, olhando pra frente, rindo da queda, pedindo ajuda pra levantar. Ajudando sempre!
Tão bom não estar sozinha...
A minha felicidade está em sentir cada segundo do dia, com tanta intensidade e poder escrever tudo isso pra me conhecer, pra me registrar, pra me purificar.
Que a gente se sinta feliz todos os dias!!!!

terça-feira, 1 de março de 2011

Pra se ter esperança...

Para Camila Queiroz, uma amiga especial.



Que a dor da saudade seja apenas um suspiro
que o silêncio que jaz sobre os olhos d'água
não esqueça os risos altos
nem a voz
o canto de outrora

Que o peito doente
da dor que punge
não seja somente esse mar de lama escura

mas o abrigo
que acolhe a luz dos que esperam
um único abraço
a última dança
sobre as pedras daquele caminho
que enfeitamos um dia
de pedrinhas de brilhante.

Que minhas mãos
sempre vazias das suas
preencha de vida os teus sonhos
pra que o amor
da gente se sustente
em luz

Quisera Deus só mais um minuto
pra dizer num beijo
o que meu coração suplica

pra não chorar mais
pra te desejar em prece genuína
amor e paz.

Alice Xavier

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ter irmã


Às minhas irmãs, Vanessa, Michele, Sarah, Mariana (e Aninha, in memorian)

Ter irmã é de repente recordar a amizade mais linda, os tempos da infância que não voltam mais. Agarro-me saudosa nas melhores lembranças, pra jamais esquecer minhas melhores amigas. Penso nas cadeiras empilhadas formando casas de boneca, nas gargalhadas infindas ao anoitecer. Nós em cima da cama, pulando ou dançando, sonhando acordadas... coisinhas de mulher. Contando as façanhas do dia ou se escondendo debaixo dela, pra encontrar o mistério das brincadeiras e o nosso eterno sorriso de criança.
Guardo na memória as músicas, o cantarolar. O teclado envergonhado, o diário escondido, o violão exagerado... Tento esquecer os desentendimentos, as palavras ardidas e as feridas que não existem mais. Esqueço. Peço perdão e perdôo. Não há sentimento melhor no mundo que saber quão grande é o nosso amor.
Ter irmã é subir em árvores, ouvir novamente os gritos, dançar em câmera lenta quando a saudade aperta. Recitar um poema, em voz baixa, ouvir uma música e chorar. Choro de alegria, nostalgia, certeza do bem viver.
Queria dizer isso todos os dias, mesmo quando não sou tão bem vinda. Só por vocês, já valeu a vida, os sonhos meus, a arte, as palavras. Todo sentimento vem daquilo que inventamos como pacto, no olhar que só nós conhecemos.
Do meu jeito tão diferente, caminho feliz. Se o tempo ou se o espaço não nos são comuns, resta o abrigo que nos acolhe, debaixo de nossos corações. Se escrevo poemas, pinto um quadro ou invento canções, deleito-me em meu próprio jardim. Mas não há poesia sem vocês. Sigo encantada ao lado seus.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Faço versos...




Tem dias que eu faço verso
só por fazer apenas
olho seus olhos e sinto
que o verso não é meu
mas todo seu

Se queres silenciosamente me dizer
o que me vale a boca
cala tua voz e me olha
como estrela a vagar só no céu
arranca de mim o sonho
e traz a realidade do beijo
nesse meu coração incerto,
tão puro
e desejoso do seu.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Era uma vez...


Eu estava organizando caixas, pastas, documentos e velharias, quando achei esse poema, escrito há alguns anos...


Era uma vez uma criança perdida
perdida no tempo de uma saudade
saudade do tempo da infância querida
do brinquedo escondido na felicidade

Era uma vez um menino crescido
que de criança não tinha nada
guardava lembranças de um tempo querido
e mesmo homem, brincava, brincava

Um dia se esqueceu que era velho
chutou bola, soltou pipa, pulou e correu
esqueceu da saudade e da vida
deitou no tempo e morreu.

Alice Xavier

domingo, 9 de janeiro de 2011


Domingo de manhã pra mim é sagrado
É quando eu sinto o cheiro da vida
quando ainda não ligaram a televisão
nem estão ouvindo o som no último volume
nem estão rindo às gargalhadas as besteiras
costumeiras de si mesmos
é quando eu me recordo
o sábado passado
as conversas fiadas,
as interessantes,
as reveladoras.
O riso dos amigos
os copos na pia
abraços de saudade.
É domingo de manhã
que mesmo não tendo chuva
eu sinto o cheiro dela
quando o vento me acorda pela janela
ou os meninos vem me beijar
ainda estou sonhando com sabe lá o quê
e me deleito em seus braços até sabe lá que horas
porque domingo é sempre de manhã
não tenho relógios.
Abro as cortinas
a luz do dia purifica minha casa
para que eu recomece
do senso de gratidão
do conhecimento recebido
do amor compartilhado
da sensatez dos passarinhos ao vento anunciando um novo dia
pra que eu seja diariamente feliz.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Reflexão de um ano que se finda




Como seres humanos, estamos em constante evolução. Que pena não compreendermos tudo como gostaríamos, de um dia para o outro, no exato momento em que as diferenças se realizam, o egoísmo, as dificuldades, os atormentos. (Não seriam assim se, por ventura, compreendêssemos.) No entanto, não conhecemos o ser humano, a sua mente perturbadora, provocante, misteriosa. Não sabemos quem somos nós. Limites nos surpreendem, pois para cada um, ele é de um tamanho, tem o tempo certo, a dimensão própria. Provocam em nós reações como a raiva, a impetuosidade, o medo, o terror; como também, muitas vezes, nos faz amadurecer, nos dá a oportunidade da superação, da solução para os problemas, do crescimento individual.
Em pleno século XXI, quando as tecnologias alcançam avanço inimaginável e a comunicação supera distâncias e limites mundiais, há pessoas que não sabem pensar; que embora, não compreendam, não buscam compreender. Aceitam as coisas como elas são, não questionam, não criticam, não transformam. Mentes quietas demais, passivas demais, acostumadas a dizer sim, a abaixar a cabeça e a concordar simplesmente com o poder das hierarquias da sociedade em que vivem.
Quem somos nós? Não deveríamos ser todos iguais? Não digo que deveríamos brigar ou guerrear quando as opiniões são opostas ou quando o outro nos ofende, nos incomoda ou nos calunia. Devemos sim questionar, gerar debates construtivos, exigir respeito. O respeito sim valoriza o ser humano, o impulsiona a evoluir. Nos dá o senso de dignidade e a autonomia de sermos unos, cada um com sua característica sempre favorável ao mundo, a liberdade de nos expressar ao universo a própria cultura, a diversidade necessária, a essência de nós mesmos.
Entristece-me a hipocrisia daqueles que, individualistas, professam palavras de amor ao próximo, perdão e conciliação, quando julgam sem conhecer, condenam e praticam a injustiça. Quem são meus amigos? Aqueles que me dizem o que pensam, aqueles que falam pra mim o que pensam ao meu respeito. Não me considerem amiga se eu falei “pelas costas”, se feri injustamente. Eu também faço parte desta raça, seres humanos em constante evolução. Mas... que bom o sentimento do arrependimento, do reconhecimento e da humildade: a chance que todos tem de se agarrar ao futuro e se desapegar do passado, o verdadeiro perdão, o perdoar a si mesmo.
Infelizmete, como as atitudes alheias nos atingem, como eu gostaria de não ser tão sensível e não sentir toda esta carga que corrói e destrói! No entanto, é hora de deixar pra trás o lixo e limpar a nova estrada. É tempo de acreditar no mundo, no outro, em nós, porque as minhas lágrimas também são de alegria, pois reconheço o bem de cada um. O bem que me proporcionaram, a oportunidade de me rever e de me buscar melhor. Pois, apesar de tudo, a sensibilidade é parte de mim. É ela que me faz criar, querer, buscar. É a sensibilidade que me dá o direito e o dom de sorrir, pintar, cantar, escrever, me expressar, em arte, o dever e a missão de ser quem sou. “Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar!”
Porque é a arte, nas suas diversas manifestações, que faz com que aprendamos a compreender o que não compreendemos, a sentir o mundo com compaixão, vontade de fazer dele o melhor lugar pra se viver. É a arte que me faz sorrir, querer lutar por respeito, dignidade, autonomia e paz. A arte propicia o entusiasmo e a força da criação e, consequentemente, da transformação.
Eu desejo para o novo ano que a arte esteja em nós e que nós a pratiquemos; a arte do amor, do exaltar a natureza, do abraço sincero, do aperto de mão. A arte da vida, da morte, dos que trabalham, que lutam, que provocam. A arte de acreditar que a vida não tem fim.
Que sejamos mais críticos e mais reflexivos. Mais auto-críticos e mais auto-reflexivos. Que sejamos mais sinceros, mais honestos, mais leais e mais amigos. Para que não passemos ao outro a obrigação de nos enxergar como gostaríamos e nem de mudar o meio em que vivemos da forma que ele próprio quer.
Eu desejo para o ano novo que a sensibilidade humana não dê aos homens a condição de vítima, mas a condição de seres ativos, atuantes e críticos na sociedade em que vivem. Que a arte seja, divinamente, fonte de inspiração e mudança positiva e que os homens sejam sensíveis o suficiente para entender e amar o próximo e, dentro do senso da igualdade, da fraternidade e da fé, viver em paz.

Feliz Natal, meus amigos!
Alice Xavier

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Profissão Professor



Me chamaram na escola municipal em que eu trabalho, (no momento, estou de licença por causa do mestrado), para receber uma homenagem de um aluno, o Adilson. O Adilson tem 27 anos, apresenta algumas limitações físicas, anda com dificuldade, não tem muita coordenação motora, tem muitas dificuldades para escrever e não consegue falar normalmente. No começo do ano, eu o incentivei a escrever um diário, já que ele adora escrever e estava tendo aulas de informática e digitação. Como saí logo no início do ano, não pude saber se ele deu continuidade ao projeto.

No entanto, ele concluiu o diário e confeccionou um livro, juntamente com a sua família, com o qual me presenteou hoje á tarde. Ele realmente escreveu a própria alma, sua história, medos, sentimentos e vitórias, com tamanha humildade e emoção que comoveu toda a escola.

Diante disso, percebo que apesar das dificuldades de minha profissão, poucas pessoas sentem-se tão gratificadas quanto um professor. Olhar para os olhos dele e vê-los brilhar com a sensação de vitória - porque ele é realmente um vencedor, pelo próprio empenho, dedicação e esforço - me fez acreditar mais em mim, querer também lutar sempre mais, melhorar, crescer.

A gente costuma reclamar tanto da vida, pôr limites, achar que nunca chegaremos a algum lugar, quando há pessoas com tantas limitações, sem condições financeiras suficientes, que pelo simples fato de querer e acreditar em si, realizam seus sonhos e são felizes, simplesmente.

O sonho do Adilson é falar normalmente, mas ele falou ao meu coração, como ninguém jamais conseguiu. Essa experiência, pra mim, será inesquecível. Deixo aqui a letra da canção que cantei pra ele, neste mesmo momento ímpar e gratificante.

Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Pode estar dentro do peito
ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
é o nome certo desse amor
Já podaram seus momentos
desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
nova aurora a cada dia
e há que se cuidar do broto
pra que a vida nos dê flor e fruto.
(...)

Coração de Estudante, de Milton Nascimento