quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Reflexão de um ano que se finda




Como seres humanos, estamos em constante evolução. Que pena não compreendermos tudo como gostaríamos, de um dia para o outro, no exato momento em que as diferenças se realizam, o egoísmo, as dificuldades, os atormentos. (Não seriam assim se, por ventura, compreendêssemos.) No entanto, não conhecemos o ser humano, a sua mente perturbadora, provocante, misteriosa. Não sabemos quem somos nós. Limites nos surpreendem, pois para cada um, ele é de um tamanho, tem o tempo certo, a dimensão própria. Provocam em nós reações como a raiva, a impetuosidade, o medo, o terror; como também, muitas vezes, nos faz amadurecer, nos dá a oportunidade da superação, da solução para os problemas, do crescimento individual.
Em pleno século XXI, quando as tecnologias alcançam avanço inimaginável e a comunicação supera distâncias e limites mundiais, há pessoas que não sabem pensar; que embora, não compreendam, não buscam compreender. Aceitam as coisas como elas são, não questionam, não criticam, não transformam. Mentes quietas demais, passivas demais, acostumadas a dizer sim, a abaixar a cabeça e a concordar simplesmente com o poder das hierarquias da sociedade em que vivem.
Quem somos nós? Não deveríamos ser todos iguais? Não digo que deveríamos brigar ou guerrear quando as opiniões são opostas ou quando o outro nos ofende, nos incomoda ou nos calunia. Devemos sim questionar, gerar debates construtivos, exigir respeito. O respeito sim valoriza o ser humano, o impulsiona a evoluir. Nos dá o senso de dignidade e a autonomia de sermos unos, cada um com sua característica sempre favorável ao mundo, a liberdade de nos expressar ao universo a própria cultura, a diversidade necessária, a essência de nós mesmos.
Entristece-me a hipocrisia daqueles que, individualistas, professam palavras de amor ao próximo, perdão e conciliação, quando julgam sem conhecer, condenam e praticam a injustiça. Quem são meus amigos? Aqueles que me dizem o que pensam, aqueles que falam pra mim o que pensam ao meu respeito. Não me considerem amiga se eu falei “pelas costas”, se feri injustamente. Eu também faço parte desta raça, seres humanos em constante evolução. Mas... que bom o sentimento do arrependimento, do reconhecimento e da humildade: a chance que todos tem de se agarrar ao futuro e se desapegar do passado, o verdadeiro perdão, o perdoar a si mesmo.
Infelizmete, como as atitudes alheias nos atingem, como eu gostaria de não ser tão sensível e não sentir toda esta carga que corrói e destrói! No entanto, é hora de deixar pra trás o lixo e limpar a nova estrada. É tempo de acreditar no mundo, no outro, em nós, porque as minhas lágrimas também são de alegria, pois reconheço o bem de cada um. O bem que me proporcionaram, a oportunidade de me rever e de me buscar melhor. Pois, apesar de tudo, a sensibilidade é parte de mim. É ela que me faz criar, querer, buscar. É a sensibilidade que me dá o direito e o dom de sorrir, pintar, cantar, escrever, me expressar, em arte, o dever e a missão de ser quem sou. “Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar!”
Porque é a arte, nas suas diversas manifestações, que faz com que aprendamos a compreender o que não compreendemos, a sentir o mundo com compaixão, vontade de fazer dele o melhor lugar pra se viver. É a arte que me faz sorrir, querer lutar por respeito, dignidade, autonomia e paz. A arte propicia o entusiasmo e a força da criação e, consequentemente, da transformação.
Eu desejo para o novo ano que a arte esteja em nós e que nós a pratiquemos; a arte do amor, do exaltar a natureza, do abraço sincero, do aperto de mão. A arte da vida, da morte, dos que trabalham, que lutam, que provocam. A arte de acreditar que a vida não tem fim.
Que sejamos mais críticos e mais reflexivos. Mais auto-críticos e mais auto-reflexivos. Que sejamos mais sinceros, mais honestos, mais leais e mais amigos. Para que não passemos ao outro a obrigação de nos enxergar como gostaríamos e nem de mudar o meio em que vivemos da forma que ele próprio quer.
Eu desejo para o ano novo que a sensibilidade humana não dê aos homens a condição de vítima, mas a condição de seres ativos, atuantes e críticos na sociedade em que vivem. Que a arte seja, divinamente, fonte de inspiração e mudança positiva e que os homens sejam sensíveis o suficiente para entender e amar o próximo e, dentro do senso da igualdade, da fraternidade e da fé, viver em paz.

Feliz Natal, meus amigos!
Alice Xavier

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Profissão Professor



Me chamaram na escola municipal em que eu trabalho, (no momento, estou de licença por causa do mestrado), para receber uma homenagem de um aluno, o Adilson. O Adilson tem 27 anos, apresenta algumas limitações físicas, anda com dificuldade, não tem muita coordenação motora, tem muitas dificuldades para escrever e não consegue falar normalmente. No começo do ano, eu o incentivei a escrever um diário, já que ele adora escrever e estava tendo aulas de informática e digitação. Como saí logo no início do ano, não pude saber se ele deu continuidade ao projeto.

No entanto, ele concluiu o diário e confeccionou um livro, juntamente com a sua família, com o qual me presenteou hoje á tarde. Ele realmente escreveu a própria alma, sua história, medos, sentimentos e vitórias, com tamanha humildade e emoção que comoveu toda a escola.

Diante disso, percebo que apesar das dificuldades de minha profissão, poucas pessoas sentem-se tão gratificadas quanto um professor. Olhar para os olhos dele e vê-los brilhar com a sensação de vitória - porque ele é realmente um vencedor, pelo próprio empenho, dedicação e esforço - me fez acreditar mais em mim, querer também lutar sempre mais, melhorar, crescer.

A gente costuma reclamar tanto da vida, pôr limites, achar que nunca chegaremos a algum lugar, quando há pessoas com tantas limitações, sem condições financeiras suficientes, que pelo simples fato de querer e acreditar em si, realizam seus sonhos e são felizes, simplesmente.

O sonho do Adilson é falar normalmente, mas ele falou ao meu coração, como ninguém jamais conseguiu. Essa experiência, pra mim, será inesquecível. Deixo aqui a letra da canção que cantei pra ele, neste mesmo momento ímpar e gratificante.

Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Pode estar dentro do peito
ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
é o nome certo desse amor
Já podaram seus momentos
desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
nova aurora a cada dia
e há que se cuidar do broto
pra que a vida nos dê flor e fruto.
(...)

Coração de Estudante, de Milton Nascimento

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Vô Joaquim: Última Homenagem



(Texto lido na missa de sétimo dia, ao som de Glasgow Love Theme, tocado por minha irmã Michele no teclado)

Joaquim Gomes. Era como gostava de ser chamado. Seu nome era o seu orgulho, embora desconhecesse seu significado: em hebraico, Elevação, o que Deus elevou. Respondia assim a quem lhe perguntasse o nome, “Joaquim Gomes”, com a mesma força que ainda carrega na alma, com que apertava as mãos de seus conhecidos, amigos, vizinhos... daqueles que lhe cruzassem o caminho, entre as caminhadas diárias, as idas ao mercado, as visitas aos amigos próximos. E embora gostasse tanto de seu nome, dava apelidos a todo mundo, mas sempre com carinho e bom humor. Há quem se lembre de seu último dia, varrendo as folhas na calçada, o mesmo olhar... a mesma vontade de viver, de não parar nunca, de sorrir.
Meu avô gostava de falar ao telefone, de ligar para os primos, de falar sem hora pra terminar... de ir ao mercado comprar besteira aos netos, de tomar guaraná, comer tapioca sem recheio, de sopinha quente, de mané-pelado, geléia de mocotó, chocolate... sempre menino. Gostava de garapa, rapadura, macarrão vermelho e muita cebola. Gostava de perfume, de estar bem alinhado, com a barba feita. Gostava de ir à missa, de ler jornal, de assistir novela, jogar na loteria... gostava de lavar sua própria roupa, de lavar as louças, de cuidar da casa... A casa... jamais a deixava sozinha ou nos deixava sozinhos... Gostava da vida, das árvores, dos coqueiros...
Gostava de contar histórias. Histórias essas fruto de uma memória inigualável, admirada por todos e por nós, que muitas vezes prometemos gravar pra jamais esquecer. E não gravamos. Talvez porque a memória seja oposta à escrita, às novas tecnologias, que nos impedem de falar com a alma e recordar simplesmente. Ele voltava no tempo que queria, lembrava das histórias de criança, da juventude, das viagens pra Goiás, da fazenda onde nasceu, da cidade natal, dos velhos amigos, dos irmãos, dos irmãos de coração, da construção da Usina Hidrelética de Cachoeira Dourada, onde trabalhou dezoito anos, entre outras. Recitava versos, rimas, ditados, parlendas, fazendo a gente rir e amá-lo sempre mais. Quem sentasse ao lado dele pra ouvir não queria levantar jamais. A gente se emocionava...
Os mais jovens o queriam como vô, me pediam ele de presente. Todos queriam ser netos dele. Nossos amigos sentavam ao redor dele e o paparicavam, “como ele é lindo”, “deixa ele ser meu vô também!” Gostava de festa, de dançar... conheceu Dona Joana nessas festinhas da juventude, dançando até findar o dia e apaixonou-se por essa morena durona do coração de manteiga. Em pouco tempo, casaram-se, e juntos andaram em nuvens e em pedras. E ele a amou de um jeito tão lindo, que toda vez que ele pensava nela, dizia com todas as letras: “É a pessoa que eu mais amo na minha vida”.
Meu avô era sonhador e talvez por isso tenha morrido feliz, porque construiu a melhor história, toda rimada, em versos poéticos, que jamais sairá da nossa memória. História baseada nos próprios sonhos, do sonhar acordado, do rir sem saber por quê.
Seu Joaquim soube nos ensinar valores como paciência, honestidade, o silêncio na hora certa. Insistiu na importância do respeito, da caridade, do servir a Deus. Puxou nossa orelha para a obediência, o calar, o pedir a bênção... Educou-nos com os olhos. E com o mesmo olhar e bondade, ganhou outros filhos no decorrer da vida, genros, genros-netos, irmãos dos genros, sobrinhos, amigos dos filhos, amigos dos netos, filhos do tempo da Usina... Filhos estes também conquistados pelo seu olhar, pela sua força, pela sua seriedade diante dos valores da vida, dos preceitos divinos, do viver sempre alegre e bem humorado. Eu poderia dizer todas as palavras do mundo, e como eu disse a ele, há pouco mais de um mês quando ele completou seus noventa anos, não há palavra no mundo que possa expressar o tamanho do meu amor. E eu ainda perguntei: vô, o que eu seria sem você... E toda minha família se perguntou comigo: o que nós seríamos sem você...
E agora, o que serão das manhãs sem o gosto do seu beijo, sem o cheiro do seu filtro solar... o que serão daqueles que recebiam seu desejo de bom dia... dos que te vigiavam na rua para que não fosse atropelado... o que serão das folhas, das flores no jardim, dos cocos no coqueiro, das canas a descascar. O que será da água, sem derramar horas na tua pia, enquanto cuidava de sua pele, tão sem rugas, tão cheirosa. Ainda ouviremos a televisão no último volume...
E agora, vô... quem irá me buscar na minha casa e dirá, o que aconteceu que até agora não apareceu... quem me acordará tão cedo... quem veremos com os bisnetos no colo, todos eles a beijar a dar carinho, a dizer o quanto quer bem... Quem avistaremos de longe de mãos dadas com o Thiago, voltando da escolinha...
Obrigada vozinho por ter sido tão vô, tão pai meu e de minhas irmãs, dos meus primos, dos nossos filhos... por ser o dono das melhores lembranças da nossa infância e, certamente, será o das lembranças dos meninos... não só pelas bolachas recheadas escondidas no guarda-roupa, mas pela sua presença tão forte e tão carinhosa em suas vidas. Obrigada pela viagem que fizemos, pelos passeios... Fizemos tudo o que podíamos. Como eu gostaria de ter estado mais ao seu lado, de ter me despedido... Porém, você não merecia sofrer e Deus lhe deu descanso. Esteve nas mãos de quem você mais confiava, teus genros-netos, que lutaram por tua vida, mas Deus te quis ao lado dele, e nós aprenderemos contigo mais esta lição: a de ter fé, a de acreditar que era tua hora, e que por mais que esteja longe, estará sempre por perto, em nossa vida, em nossa memória, em nosso coração.
Sei que um dia te encontrarei e você estará naquele lugar que você disse que estaria quando morresse, num jardim cheio de flores, numa paz tão imensa, ao lado dos que já partiram, sua mãe, seu pai, sua vó, seus irmãos, seus amigos, do Antônio, da Aninha, do meu pai... e o avistarei de longe, contando histórias, cantando, aguando as flores, varrendo as folhas secas, rindo, rindo rindo... terão apelidos os seus amigos, e dirá bom dia, e apertará com força as mãos companheiras... te verei caminhando com as pernas tão leves, sem feridas na pele, sem dores... com o mesmo olhar doce e sincero, de quem sente saudades dos seus... e embora o sol não queime seu rosto, lá estará você com o mesmo chapéu na cabeça. E virá com aquele sorriso me receber, e me beijará no rosto e sentará na sua cadeira... e deixará que eu cheire sua cabeça e te encha de beijinhos, por toda a eternidade.
Alice Xavier
Obs.: Meu avô morreu atropelado por uma moto em alta velocidade, dia 18 de outubro último, em uma rua larga e calma, quando voltava do mercadinho de seu amigo, com as sacolas cheias de miojo para os meninos.


Todos os dias de manhã, quando não houver o seu cheiro
quando não tiver o seu beijo e nem o forte aperto de suas mãos
Quando as ruas estiverem tão frias
A calçada coberta de folhas e a sua cadeira vazia
Ainda ouviremos seus passos
Seu bom dia alegre e sincero
Seus versos e suas histórias
suas cantigas de ninar
Porque seu olhar é eterno
e nele aprendemos a ver e a sentir o mundo de um jeito melhor
a viver sempre com fé
a trabalhar sempre sorrindo
e a cultivar a vida sempre amando, do jeito que ela é.
Alice Xavier

segunda-feira, 18 de outubro de 2010



Não consigo escrever eu mesma
Porque não encontro palavras
Nessa imensidão de vida que me sustenta.
Impossível traduzir os sonhos
devaneios a me atordoar
ou a me acordar como vento
e poeira nos olhos.

Sempre às gargalhadas
Danço sozinha pela casa
Ou choro a solidão desconhecida.
Espero a chegada dos meninos
A beleza juvenil saltando pelos olhos
Os risos de conversas masculinas
As histórias sem fim.

Nas paredes da casa
Além da marca das mãos dos pequenos
e do perfume deixado por eles
há a certeza indescritível da alegria
da ânsia pela paz e do consolo divino
imaculado pela língua do mundo.

E a casa nos acolhe como o sol
a abraçar o mundo
Num tempo só nosso e infinito
Os meninos cantam
as suas próprias canções
Beijam-me até o adormecer
Arrancam de mim a incerteza da vida
E eu renasço todos os dias
Sob teus lençóis


Alice Xavier

Soyons heureux, enfin!




Não me despeço de você
porque a morte ainda não chegou.
Não me despeço de você
porque o sonho não se findou.

Ah se pudéssemos controlar tudo
os sonhos, os desejos, os instintos
Não haveria os devaneios
os atos insanos
os momentos de loucura...
Mas não também não haveria a poesia
nem as obras de arte
as cantatas, as líricas
e as serenatas.

Perdoe-me sonhar acordada,
mas a vida, às vezes, é dura
e chorar não seria a melhor solução.

Quero sorrir e vê-lo sorrir
pois acredito em melhores dias
em que andaremos juntos
e livres pelas ruas
de mãos dadas
entre beijos e borboletas
como sonhamos na juventude.

Alice Xavier

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ser Alice no país das maravilhas




















Seria metaficcional dizer que meus textos são meras representações da realidade ou dizer que o meu leitor interfere com a sua própria interpretação? Seria verdadeiramente ficção o que escrevo? Haveria a verossimilhança? Caro amigo leitor, não digo que é verdade nem que não é. Devaneio ou ilusão, representação ou mimese, minha poesia vem como secreção sadia escorrendo pelos poros, incontrolavelmente. Leio tão pouco quando deveria ler tanto e me perco nas músicas de Jim Morrison que ouço desde menina e que até hoje me fazem levitar, chegar ao extremo, no âmago de mim mesma, ao clímax da narração da minha própria vida. Lugares que vou e não volto, partes de um mundo que eu mesma construí fora da minha realidade conhecida por todos, sonhos que não se explicam e que - incrível! - alguns os visitam e o reconstróem comigo. Literatura ou não, o que escrevo para alguns é dom, para mim é necessidade vital. Busco desesperadamente por um lápis e um pedaço de papel e as palavras vem como vento aos meus ouvidos. Não expressá-las é adoecer. Falta-me o ar, secam meus lábios e o meu corpo padece. Vivo sonhando acordada, insistem os familiares. No entanto, não sei - e não posso - viver diferente. Sei que não sou a única no mistério da existência humana e tão poucos conheço para que pudéssemos debater os acontecimentos transcedentais da alma sonhadora. Seria significante e eu me realizaria, traduzir a mim mesma, em busca de identidade. Porém, é parte intrínseca dos sonhos não se revelar por inteiro a ninguém. Melhor pensar que, apesar de tudo, não me acontecem pesadelos neste meu mundo maravilhoso, nesta minha realidade quase virtual. Perdoem-me minha digressão, mas eu precisava da sensação fantástica do alívio.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Onde Quando e Por que???




Andei pensando em você
nas suas últimas palavras
como é ruim não te saber

Envio mensagens
escrevo poesias
e nada de você aparecer

Anjo dos meus sonhos
Por acaso eu disse algo que não gostou?
Queria tanto poder te agradar...

Vou ao teu encontro
e é tudo em vão
poemas meus voam pelo ar
Nos perdemos?

Creio que não.
Faz parte do amor
deixar ir e voltar.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Volta



vem deitar no meu colo quero te fazer um carinho cuidar de você como a um passarinho alguma coisa machucada ainda não sei o que é deixa eu achar a ferida lavar os teus pés canto uma canção que você goste falo das coisas que te agrada calo se preferir ouço se quiser falar rezo em silêncio toco seu peito raio de luz pela janela leva longe a escuridão dorme em meus braços sonha enfim voa que te quero livre canta que te quero assim volta que te quero pronto enfeita o tempo e o meu jardim enxugo teu pranto dou-te morada aguardo tua boca quando quiseres beijo rio sem jeito sorriso de lado do jeito que você gosta não digo nada só quero cuidar de você fecha os olhos acalma o coração fico na tua estrada quando quiseres vou quando não quiseres volto me escondo como borboleta debaixo das folhas dos galhos sem ar asas a murmurar desejos segredos meus e seus só quero paz e a paz te dou estou aqui aqui te sou.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Escrito em 1997, verdade infinita


Ninguém assim como eu poderá um dizer pra você
desse amor que eu nem sei se é amor
mas é forte como a dor da saudade

E essa saudade
essa vontade de te tocar
de sentir o seu sentir
de beijar o teu eu por inteiro
e te amar...

se for amor o que eu chamo de amor
que ele permaneça pra sempre
e pra sempre esse carinho
esse desejo de estarmos juntos
e de não dizer mais nada.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Viver e não ter a vergonha de ser feliz!




Tão bom falar da vida. Do como é bom acordar todo dia, trabalhar, rir, rir muito, chegar cansada em casa, dormir, sonhar... Chorar também é bom, lavar a alma, o peito, o mal olhado.... Tão bom as sensações de alívio, o remédio, o beijo, o sim! A casa limpa, o travesseiro velho, os pés descalços, shampoo novo em cabelo seco, chuva grossa em noites de calor. Quer coisa melhor que o vento, cheiro de coisa nova, bilhete na geladeira, poesia de amor... Ah, eu amo dormir sem roupa, ficar sozinha em casa, falar com as paredes, comer brigadeiro de panela, chorar no fim das novelas, rir alto, tocar violão, cantar no chuveiro... adoro comer pipoca com meus filhos, assistir O Rei Leão, dançar I gotta feeling com o Luis Felipe, contar histórias para o Thiago, imitar a voz do porquinho, gargalhar que nem as bruxas... tão bom tão bom tão bom... Lembrar das histórias da infância, rir com minhas irmãs, cantar e chorar com minhas amigas, aconselhar meus amigos gays com seus namorados ciumentos... descer no tobogã, contar quanto tempo debaixo d'água, brincar de pique-pega, ler um livro, dois, três... colo de vó, cafuné, cheiro da minha mãe, da cabeçinha do meu avô... viajar, mergulhar no mar, pegar jacaré, pescar, correr... fazer amor, plantar árvores, regar o jardim... se sujar de lama, castelos de areia, olhar para as estrelas, fazer pedidos a elas... ser feliz é tão bom e tão fácil... uma boa música, um Beatles, Doors ou Chico. Poesia da Adélia Prado, Mário Quintana, Fernando Pessoa... escrever poesia, carta aos amigos antigos, contos fantásticos, textos no blog, mensagens aos eternos amores... E ainda tem gente que se mata por nada... um pé na bunda, uma decepção ou um namorado idiota... Mas e o livro que eu não li, a música que eu não ouvi, aquela que eu não dançei, aquele cara, aquela pessoa que eu não pedi perdão??? e minha declaração de amor??? Sempre alguma coisa pra deixar pra trás. E o tempo é tão curto, por que não viver... Eu quero a vida, não preciso correr!!!!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O sol raiou...


Parece que foi ontem que você me escreveu A alegria do anjo. Ainda ouço tua voz a me recitar os versos e trago na memória a imagem dos teus olhos, tão meus. Guardei aquele papel entre cartas de amigos, bilhetes e fotos antigas, como qualquer coisa do passado. No entanto, é ele que procuro em noites de saudade, momentos de desespero, como um alento, a salvação da minha angústia, da incerteza dos meus dias futuros.
Até quando terei asas? Não vês que foges de si mesmo? Magoar?? É a mim que fere tuas escolhas sempre tolas. Até quando lerei sozinha os teus pensamentos e desejos? Hoje não quero sonhar, quero você por inteiro, pra que não me esqueças mais e, então, me escrevas um novo poema de amor.

domingo, 3 de outubro de 2010

Sonho em Prosa




Não sonhei com você esta noite, mas acordei no meio da noite como se sonhasse. Meus pensamentos, tais como sonhos, me levaram ao seu encontro. Era um jardim escuro, como se a gente se escondesse. Um lugar quase secreto, se não fossem as borboletas noturnas a revelar nosso segredo à noite. Eu não conseguia falar. Fechei os olhos e senti você me tocar. Despiu-me com ternura e o meu corpo não sentiu o frio da noite nem das águas incessantes que de algum lugar faziam um barulhinho bom. Enquanto você me beijava eu sorria como se mais nada no mundo houvessse e tudo aquilo era o que sonhei, desde a mocidade, quando por teu desatino, caí por esse mundo a chorar. Até que não mais lágrimas houveram e a esperança encheu meu peito de saudade. Agora eu estava ali, diante de você, nu em meus braços. Você estava feliz como eu nunca havia visto e dos seus olhos desciam lágrimas de alegria. Quantas estrelas vi cair, como roguei a Deus que a noite não tivesse fim. Minha alma toda se agitou de medo e prazer e você me acalmou com cuidado. Cuidado este que só encontro ao seu lado. E ao seu lado, tão pouco posso. A noite se finda. A realidade é outra. Quanto prazer me deste. Levanto ao sol em meu rosto, ainda ouço o som da noite e sinto seu perfume. O meu corpo é quente e nele ainda há você. Choro profundamente a tua falta, debaixo do meu chuveiro comum. Permaneço taciturna ao decorrer do dia... Por que temos vida após os sonhos?

sábado, 2 de outubro de 2010



espelho espelho meu
diga-me
se há no mundo
alguém que ama mais do que eu

se na terra se findou
tal estranha criatura
diga-me: quem restou

se não quem amor me jura?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010



Solidão é nada
O que me dói
são as chagas
no corpo
palavras amargas
feito bala
ou faca afiada

pra que tanto orgulho entre os homens

Tão doce o sabor do amor
do não querer nada
se não o olhar doce da mulher amada.

Acorda, Alice!!!!!!!!!!



Em plena aula de Metaficção, só consigo devanear. Ultimamente, ando me encontrando com meus próprios sonhos, literalmente, dia e noite. Não sei mais o que é certo e o que é errado, o que é próprio da ilusão e o que é verdade. Não sei se peco ou se estou indo ao encontro do meu verdadeiro destino. Já não quis ferir os que andam ao meu lado, mas estes me feriram gratuitamente. Hoje não quero mais ferir a mim mesma, nem trair os meus próprios desejos, o que diz o meu próprio coração. Quero uma chance pra provar que estou no mundo, não pra ninguém, mas para mim mesma, pelo menos uma vez.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Se você não existisse...



"Et si tu n'existais pas
Dis-moi pourquoi j'existerais
Pour traîner dans un monde sans toi
Sans espoir et sans regret

Et si tu n'existais pas
J'essaierais d'inventer l'amour
Comme un peintre qui voit sous ses doigts
Naître les couleurs du jour
Et qui n'en revient pas

Et si tu n'existais pas
Dis-moi pour qui j'existerais
Des passantes endormies dans mes bras
Que je n'aimerais jamais

Et si tu n'existais pas
Je ne serais qu'un point de plus
Dans ce monde qui vient et qui va
Je me sentirais perdu
J'aurais besoin de toi

Et si tu n'existais pas
Dis-moi comment j'existerais
Je pourrais faire semblant d'être moi
Mais je ne serais pas vrai

Et si tu n'existais pas
Je crois que je l'aurais trouvé
Le secret de la vie, le pourquoi
Simplement pour te créer
Et pour te regarder

Et si tu n'existais pas
Dis-moi pourquoi j'existerais
Pour traîner dans un monde sans toi
Sans espoir et sans regret

Et si tu n'existais pas
J'essaierais d'inventer l'amour
Comme un peintre qui voit sous ses doigts
Naître les couleurs du jour
Et qui n'en revient pas"

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ei...

_ É você?! Tá tudo tão escuro... mas eu posso sentir. Não! Não vai embora! Desculpa eu ter te assustado, mas é tão bom te encontrar. Adivinhar a hora em que você está aqui, conversar com você... Ah quanto tempo não me escreve!!
Deixa eu te descobrir, te compreender, ler teus pensamentos sobre mim.
Não foi por acaso que você entrou me encontrou... Que bateu na minha porta, que viajou ao meu lado entre sonhos e poesia. Por que é, então, que se esconde? Por favor, fica! Há tanto pra você por aqui... Mas não se preocupe: não vou te prender. A liberdade me inspira... Eu quero apenas te revelar meu coração.

domingo, 19 de setembro de 2010

espontaneidade




Voltando pra casa, de um passeio comum, sobre nada conversávamos. Ouvíamos o Thiago cantarolar canções da escola. Antes de nos aproximarmos do portão de casa, quando o silêncio já começava a fatigar a rotina de nós mesmos, meu pequeno filho (prestes a fazer quatro anos de idade), abriu um céu de luz:

_ Pai, Mãe... eu te amos !!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Perdidamente...



Estou como em um labirinto
não encontro a saída
Amar-te é me perder
nas encruzilhadas deste caminho
desconhecido destino
Ter aos ouvidos
rugidos das fadas
língua às avessas
até me encontrar no devaneio
de tuas horas absurdas.



Melhor que poder ver, ouvir e saber é poder sentir. Os sentimentos, sim, são verdadeiros. O resto... ilusão.

Alice Xavier

Nossa Senhora de Minha Vida


When i find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be.
And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom, let it be.
Let it be, let it be.
Let it be, let it be.
Whisper words of wisdom, let it be.
And when the broken hearted people
Living in the world agree,
There will be an answer, let it be.
For though they may be parted there is
Still a chance that they will see
There will be an answer, let it be.
And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be.
I wake up to the sound of music
Mother mary comes to me
There will be no sorrow, let it be.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Depois que te encontrei...



...A alegria entrou na minha vida de certa forma que eu sou capaz de ver luz, passarinho e borboleta no meu mundo escuro, frio e pungente.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ainda..



Ainda escrevo poesias
porque sei que você me lê

ainda abro o sorriso
porque sei que você me vê

eu só não te beijo ainda
porque eu não sei
se você me crê.

Hibernando



A morte é perder você novamente
lentamente para o tempo
que a gente não sabe

sufocar o velho desejo
do amor

se perder no suspiro
de como seria
você
e eu

Não quero mais sonhar
quero a liberdade
da vida

asas de borboleta
pra te reencontrar

no espaço infinito
da velha cama
com o mesmo cheiro
e te amar...

...loucamente.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

se sonhar comigo esta noite...




... je ne voulais que m'ocupe de toi. C'est un péché?

sábado, 4 de setembro de 2010

Ao meu avô Joaquim... 90 anos!



Seu Joaquim, Joaquinzão, Chapéu Preto
Vô Joaquinho, vovô Quimquim...
Ô xente, pitoloco, pituruco
Tiro liro lê tiro liro lá...
"_Menino se endireita!"
"_O dia que ela tá nervosa eu ponho meu chapéu na cabeça e só apareço no fim do dia!"
"_ Olha o que o vovô trouxe pra você!"
"_Skini faz bem pra saúde... é de milho!"
"_Que é que tá acontecendo que você não apareceu aqui hoje?"

Ah... vô
Celebrar a sua vida é me recompor em verso
É me vestir de branco, criar asas
Rir dos teus ditados,
Aprender com as tuas poesias, parlendas e parábolas...
É olhar para seus olhos e ver minha vida todinha dentro deles
Meu vô sonhador
Meu vô menino
Por que não me sustentas mais nos teus braços?
Por que é que a gente cresce?
Lembra de quando ia nos buscar à pé na escola
E a gente parava pra descansar e tomar guaraná?
Lembra quando eu brigava pelos dois lugares do seu colo?
(acho que ainda brigo)
Lembra das tardes de fim de mês
(ou era no início?)
Com cheiro de suflair derretendo na boca?
Lembra dos tiro liros que cantava?
Eu lembro!
E disso tudo eu fiz minha melhor lembrança
minhas histórias preferidas da infância

Mas...
Melhor que lembrar é poder vivenciar
Um homem de noventa anos
Sair pra levar meus filhos na escola
Buscá-los na saída
Fazer o pequeno dormir na rede
Varrer as folhas de manhã
Caminhar
Dar bom dia a quem passar

Não deixar que a vó lave suas roupas
Que minha mãe lave as louças
Ter sempre um beijo gostoso pra me dar
Sua carequinha cheirosa pra eu cheirar

Quem me dera essa memória
pra contar histórias
Recitar versos
Lembrar da infância
do pesado trabalho em lavouras de algodão

Vô, você é meu exemplo
Minha fonte de força
Minha inspiração de alegria
Minha riqueza
Meu carinho mais sincero
Meu abraço mais gostoso

Celebrar a sua vida
É me recompor em verso...
O que eu seria?
O que eu seria sem você?

Quer graça melhor que fazer o teu almoço
Encher o arroz de alho
E ficar caladinha...

Obrigada meu vozinho querido
porque você nunca me deixou sozinha
sempre me amparou, consolou
me ensinou e me ensina ainda
a amar, a respeitar, a calar...
ah... vô
um dia eu aprendo.

Um dia eu aprendo a cuidar dos meus pés
A passar filtro solar no rosto
a dormir cedo
a acordar cedo
a cuidar da casa com tanto gosto

Enquanto eu não aprendo
Deixa eu continuar a ser criança
E gritar é big, é big,
Viva o vovô Joaquim!

Eu te amo vô
Nós te amamos
E não há palavra no mundo que possa explicar o tamanho desse amor!
Obrigada!

Alice Xavier

domingo, 13 de junho de 2010

antigo...

"Quero chorar não tenho lágrimas
que me rolem na face pra me socorrer
se eu chorasse talvez desabafasse
o que sinto no peito
e não posso dizer."

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ruídos

O cansaço me consome como coisa velha
atirada nas latas
aos felinos

meu coração não é de aço
é puro sangue
e os vampiros vencem

rebuçado
leviano
aliciante

o sangue
o coração
a mente

deito em chão duro
meu regaço
das penas insensatas
das lutas vãs

fortaleza nata
nefasta
pra que serve?
Choro às escondidas.

Quero paz...

aquele consolo do fim do dia
que só os fracos merecem.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O que é leitura?

O que é a leitura?
Perguntaram-me tantas vezes durante a faculdade.
Respostas prontas, eu sabia,
mediante conceitos dados por inúmeros pensadores
da educação, dos homens, do mundo.
No entanto, eu não sabia o que era leitura
Nem ao menos o que era ler o mundo
Sentei-me numa pedra
Distante de casa
E enxerguei o pôr do sol.
Daquela cena, fiz um poema
Bonito, rimado
Cheio de metáforas e jogos com as palavras
Mas eu ainda não sabia o que era leitura
Li poemas de Manuel Bandeira
Adélia Prado, Fernando Pessoa
E neles fiz meus poetas favoritos
Li romances de José de Alencar
Machado de Assis, Gabriel Garcia Marquez
E tantas vezes me decepcionei
Porque não li o final que eu esperava.
E eu não sabia o que era leitura.
Li jornais, li revistas, li bula de remédio
Li placas na contramão
Li as cartas que os amigos me enviavam
E as cartas que o meu bisavô escrevia
E eu não sabia o que era leitura.
Li tanto e tantas vezes não entendi nada
Voltei e li novamente
Dispersei-me com a conversa de minhas irmãs
Tomei remédio pra me concentrar
Fechei a porta do quarto
Algumas vezes, o silêncio
Outras tantas, música pra acalentar a alma
E eu me perdia nas histórias
Pra de repente me encontrar
No país das maravilhas.
Eu chorava e ria
E o meu mundo
era somente o livro que eu lia.
Quantas vezes eu achei que minha vida
Era somente aquela história finita...
Quantas vezes eu tive a certeza
Que a minha vida dava uma história de livro...
Mas eu ainda não sabia o que era leitura
Fui lendo tudo
Tudo o que encontrava
Lia as legendas de filme
E nos filmes eu me inspirava
Corria pro papel e
escrevia alguma coisa de mim mesma.
Lendo os filmes
Eu achava que sabia o que era leitura.
E continuei lendo e escrevendo
Inventando e me encantando
No entanto... descobri ,com o passar dos anos,
Que eu ainda não sei o que é leitura.
Quem diz que aquele rapaz ali sem fazer nada
Bebendo com os amigos
Entorpecendo-se com seus vícios
Não sabe o que é leitura?
Quem diz que aquela senhora
Entretida com seus bordados não sabe o que é leitura?
Quem diz que aquele senhor
De chapéu preto
E sacola da feira na mão não sabe o que é leitura?
Quem diz que aquele pai
Que leva seus filhos pra escola
Na garupa de sua bicicleta
Não sabe o que é leitura?
Quem diz que aquele menino
Vendendo bala no trânsito
Não sabe o que é leitura?
Quem diz que aquela mãe
Que vela seus filhos à noite
Ou anda ao seu lado
Dia após dia
Pra lá e pra cá,
Não sabe o que é leitura?
E de repente...
Vejo-me lendo o mundo
Vejo-me na leitura dos homens
Que decorrem de um poema
poema de amor de encanto
caso de ternura
Ou daqueles que
cantarolam qualquer música
Ao final do dia
Pra espairecer
Respiram fundo pra não chorar
Ou pra sorrir
Ou pra dizer a palavra mais linda
Que encontrou,
ao ser amado tão belo
e tão cansado do dia da vida dos sonhos
Surpreendo-me com a leitura
Dos jovens
Que interpretam a vida
Cada um do seu jeito
Cada um com sua esperança
Leio o olhar de meu avô
E não consigo nunca escrever
a vida que ele construiu.
A história que ele deixou.
Minha avó, dormindo na cadeira,
Lê a saudade
Dos tempos em que corria pra janela
Pra ver se o homem de sua vida
Já chegava para o almoço
Ele ou ela, na capacidade de homens,
Leem o tempo, leem os sentimentos
Leem o sol, a chuva, o vento...
E cada um com sua leitura
Apresenta todos os dias
A sua própria poesia
De palavras inventadas
E musicada nos versos
Da alegria
E do desejo de ser sempre
Um bom e simples leitor.

Alice Xavier

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Caminho entre o nada e o de repente
E talvez a saudade me engasge eternamente
Saudade de tudo o que um dia eu fui
E me perdi
Vagando pelo mundo
Soltando os verbos imundos
No escuro do abismo
do peito da solidão amargurada
cantei os últimos versos
sorri o último encanto
no sonho do inimigo
lá eu estava
correndo em sua direção
para o beijo derradeiro
Luz, apareça!
E me encontrarei
Nos teus espetáculos absurdos!

Alice Xavier

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Os milagres de Chico Xavier



Quando eu era criança, tinha o sonho de conhecer Chico Xavier. Diziam, ele era iluminado. Há alguns metros de sua casa, já se podia sentir sua paz, uma emoção forte, cheiro suave de flor. Era a casa da caridade. Da doação plena. Da esperança de muitos, do consolo.
Até que um dia ele morreu. Ninguém estava pensando nele ou que aquela seria sua hora. Estávamos todos felizes, comemorando a vitória da Copa de 2002. No entanto, que despedida!!! Céu em flor! Assim como ele ensinava aos que perdiam seus entes queridos, lágrimas de esperança. Nenhuma revolta ou desespero. Era uma notícia feliz saber que Chico Xavier retornava ao seu verdadeiro mundo, para descansar seu corpo físico, mas para continuar, de certa forma, com seu trabalho de luz, no plano espirtual.
Mesmo aqueles que não acreditavam em suas palavras, puderam sentir a força das mesmas sobre cartas psicografadas de tantos filhos nas mãos de suas mães desesperadas, puderam sentir a bondade em seus olhos, a esperança nas diversas mensagens deixadas ao vento, nos livros, nas orações infinitas.
Houve aqueles que zombaram, que maltrataram, discriminaram, ofenderam... tudo em nome do mesmo Deus. Mas Chico continuava com o mesmo sorriso, o mesmo olhar humilde, a mesma disciplina, cumprindo com seu único propósito de fazer o bem, o verdadeiro bem.
Há alguns anos, li o livro "As vidas de Chico Xavier", de Marcel Souto, e fiquei maravilhada. Não conhecia nada sobre a vida de Chico Xavier e me emocionei com toda sua história. Que dom! Que sabedoria divina! E a gente que pensa que não há pessoas assim no mundo em que vivemos. Quão bom é acreditar nisso, acreditar no bem, nas possibilidades grandiosas da caridade e do amor.
Assistir ao filme "Chico Xavier" foi como realizar meu antigo sonho. Sim, eu estive perto dele e senti tudo o que eu, um dia, quis sentir. Uma paz maravilhosa (e até estranha) me envolveu. Era como se aquela sala de cinema estivesse iluminada. Tinha cheiro de flor. Os olhos de quem saíam, depois das luzes acesas, eram cobertos de lágrimas. As lágrimas da esperança. Homens e mulheres sentiram. E eu fiquei com a certeza daquela presença amável, que a vida inteira me tocou e me ensinou com palavras tão, divinamente, sábias.
Se eu sou espírita? Não, sou católica. Mas crente, e grata a Deus (pelas), nas verdadeiras presenças de luz e paz no mundo em que vivemos.
"Salve Chico!"

Alice Xavier

sexta-feira, 26 de março de 2010

Meu Brasil brasileiro

O Brasil é assim, entre marchas e alegorias,
o meu país favorito.
Não está livre das guerras,
dos casos hediondos de violência,
da justiça tão pouco feita,
 no entanto, engrandece o meu coração de filha
dessa pátria que, pelos que merecem, 
cresce no sentimento ímpar de lealdade

Importa-me a corrupção do país
dos políticos malfeitores
e dos que morrem de fome
mesmo tentando
com enxadas e mãos
a colheita necessária do pão

Importa-me seus desaparecidos
desde a guerra da ditadura
até a a maldade crua dos
que perseguem os pequeninos

Porém
engrandece-me a alma
grandes nomes da música
da arte
a literatura em versos
brasileiros
cotidianos
sobre as casinhas velhas de barro
ou a saudade
ou os amores
da simplicidade do coração.

O hino
a mão sobre o peito
retumbante
As águas deslumbrantes
a seca
o cerrado em flor
o pé do samba
da moça negra
do índio
pé de tudo que dá fruto

Brasil a tua cara
se escancara no meu sonho
passear sobre tua estrada
teus mares
teus rios
tua areia quente
nos meus pés sempre virgens
a esperar a nova aventura

tua cultura
tua história
teu povo agreste
teus contos
tuas músicas
teu folclore
a sombrinha colorida debaixo do sol
o boneco dançante
as senhoras de branco
as igrejas lavadas
o choro da fé

Ó Pátria amada
idoltrada salve salve,
quem são aqueles
que te envergonham
e não levantam sua bandeira
jogando os próprios filhos
pela janela
as próprias mães pelas mãos..

A tua orquestra
de herois
te figuram o mais belo dos belos
o Cristo Redentor
de braços abertos...

Teus risonhos lindos sonhos
são também meus
na fé de que guardas
em divina casa
o teu melhor vinho
a mesa farta
de justiça
e igualdade.

Brasil,
meu velho guerreiro
canção emocionada
da esperança,
os filhos teus não fogem à luta.
Pátria amada Brasil!

quarta-feira, 10 de março de 2010

Fazendinha da vó Raminha











Cheiro de flor
é canto de bem te vi
na porteira

em dia de chuva
a gente sente
perfumar tudo

grama molhada
lama
flor machucada

barulhinho ruim
aquele
da porteira abrindo

dia de chuva
a gente sente
escuta longe

bem te vi cantando
porteira
gado no curral

olha o tempo na varanda
sente o cheiro do pito
do vô

tudo é cheiro:
o do pito dói nas narinas

água de coco
coquinho que não sei o nome
siriguela

cavalo manso
pé de goiaba
tanto o que fazer

vovó enche o saco de farinha
anda com teus passos gordos
faz biscoito até o meio dia

cheiro de queijo
de polvilho
de bolo de arroz no forno

Rita, o feijão tá queimando!
Refoga o milho
Brasil quer café!

acordo cedo
caminho na estrada
até a represa

saudade do leite tirado na hora
às cinco da manhã
ouço gritos

meninada correndo
de cocota* presa na porta
por uma linha comprida

vontade de voltar pra cidade
e assistir televisão

vontade de voltar pra fazenda
e escrever poemas
de sertão

vontade
saudade
silêncio
cheiro
fumaça
barulho
trovão
cachaça
naftalina
retrato
carta
porteira
cinzeiro
grilo
morcego
córrego
laranja
galinha
cozinhadinha
panela queimada
bica
paçoca
cural
milho verde
chuveiro gelado
banho de bacia
pedra sabão
baú
cama de meu pai...

de repente...
cheiro de flor.

Alice Xavier
______________________
*cigarra

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Depois dos 30, minha amiga...




Quer encontrar alguém
no mais alto degrau da sua vida
esquece garota
que sua idade já passou dos trinta
você já deveria saber que agora
só as famosas enxutas
é que conseguem um garotão
a procura de experiência
e, cá entre nós,
você já se molhou demais
tem rugas pra todo lado
dinheiro em nenhum bolso
histórias malucas
piadas sem graça
segue um conselho:
desliga o celular
esquece os romances
deita no chão da varanda
frio, gostoooso,
e relaxa.
Amanhã é sexta feira
bebe uma cerva gelada
e não esquenta
de madrugada você se aguenta.
sozinho é que é bom!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Para minha prima Dianny















.
Tem vida nova por aí
Um cantinho novo no meu coração vai surgir
Tem gente que amo que está esperando
fazendo a gente esperar também.
.
Com o novo... a esperança,
o recomeço,
a velha cantiga,
a inventada.
.
Luzes de madrugada
choro
choro de mãe
voz da alegria exagerada.
.
Respira esse novo ar
nova espécie de atmosfera
entrega-te ao bater do seu novo coração
sem medo
sem pensar em mais nada.
.
Deixa o acalento
o acalanto
a alma calma
ria de olhos fechados
a sensação da vida
.
porque só agora
compreenderás
o tudo
o nada
o que é a vida
e o amor, nas tuas entrelinhas..
.

Alice Xavier

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

As palavras não são indiferentes: umas fazem-nos mal, irritam-nos, criam distância; outras, pelo contrário, vêm ao nosso encontro e adoçam-nos a alma. Quem as domina e as sabe utilizar é afortunado porque adiantou muito na vida e evitará grandes desgostos. E, mais importante ainda, será semeador de paz e de alegria. (Miguel-Angel Martí García)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"EDUCAÇÃO: Seleção feita pelo MEC indica que cursos com piores notas são os que formam professores.
Alunos com baixo desempenho viram professores.
A profissão de professor é a última opção nos vestibulares e cada vez mais atrai jovens mal qualificados e com grandes deficiências na sua formação escolar. Questionário aplicado pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no ano passado revela que quem pretende ser professor no Brasil tem baixa renda familiar e tirou nota 20 na prova – numa escala que varia de 0 a 100." (O Popular, reportagem de capa, 07 de fevereiro de 2010 - Goiânia-Go)
É triste constatar: Infelizmente, é essa é uma verdade no Brasil inteiro. Como professora (há mais de 10 anos) em escola pública, eu gostaria de conviver com uma outra realidade no âmbito da educação brasileira. É vergonhoso. A culpa, dizem, é dos professores.
A escola pública conta, principalmente, com alunos de baixa renda. Como se isso não bastasse, oriundos de famílias totalmente desestruturadas, economicamente, socialmente, culturalmente... Famílias desrespeitadas e excluídas pelo governo e pela sociedade, desempregadas, sem atendimento adequado na área da saúde etc. Indivíduos gerando indivíduos dentro do tráfico, da violência, em casas sem valores, sem princípios e sem religião...
Pais e mães, que por falta de tempo - ou não - abandonam seus filhos, nas mínimas coisas como pentear o cabelo, escovação dos dentes... Quando o problema não é a falta de dinheiro, trocam uma alimentação saudável por porcarias e drogas no meio da rua. Obrigam, muitas vezes, seus filhos a pedir esmola na rua, ao invés de incentivá-los a estudar, a transformar suas vidas, suas histórias.
O que são valores para estas famílias? Culpá-las? Por que? É essa a realidade delas. Não conhecem outra. Mandam seus filhos pra escola pra se verem livres deles. E quando a escola as chamam, pais e mães (ou "responsáveis") tem sempre a mesma resposta: "Eu não dou conta deste menino(a). Vocês é quem tem que dar!" Quantas vezes ouvi isso.
Já vi criança de seis anos praticar sexo dentro da escola. Já vi usarem drogas. (Não vou dizer o que vi com adolescentes.) Já vi criança machucada, espancada, humilhada. Já apanhei de aluno, já ouvi palavrões, fui violentada verbalmente com termos sexuais horríveis. Já tive aluno assassinado, preso, bandido.
Já ensinei muito, já virei psicóloga, quando não atriz, palhaça, cantora. Tentei mudar um mundo, uma realidade, em vão. Adianta? Aquela história de "fazer a minha parte" vem me frustrando. Quem sou eu num mundo como esse? Acabo sendo ameaçada de morte por querer ensinar o aluno a ler, a criticar, a ser melhor. Quem me ameaça? Não! Não é o aluno! É o próprio sistema!
Já tive coragem, já perdi as forças! Todo santo dia me ergo novamente e tento fazer minha parte. Nas escolas, os alunos passam sem saber. Entram com dificuldades cognitivas - além de outras - deficiências no histórico escolar, faltam aulas, sofrem em casa, não são acompanhados pela família, apresentam problemas de disciplina, não lêem, não estudam, passam sem saber. A culpa? É do professor. E aí? Passam de uma série pra outra sem saber. Saem da escola municipal e vão para a estadual. De repente, alguém da secretaria da educação solta (talvez sem querer, rs) - depois de tentarmos discutir a questão de "passar sem saber": "O que ele vai fazer com esse diploma na mão já não é mais problema nosso!". Seria hipocrisia dizer que senti vontade de chorar... Pra que brigar? O que adiantaria? Eu ouviria mais um milhão de argumentos ridículos, incoerências, ambiguidades e nada resolveria os problemas da educação no Brasil. Somos obrigados a nos calar. A aceitar. A tapar os olhos e esperar a "morte" chegar.
(Como se não bastasse, inventaram aquela história de "Amigo da Escola". Estão jogando a responsabilidade nas mãos da própria sociedade. De mim, querem caridade. No entanto, não sou "amiga" da escola, sou profissional da educação.)
Há aqueles que querem uma vida melhor. Há aqueles que sonham com uma faculdade, tentam o vestibular. Que curso escolher? Licenciatura, claro. É o mais fácil de passar. Aliás, quem, em são estado de consciência, hoje em dia, quer ser professor? Não há mais sonhos. Foi-se o tempo em que garotinhas brincavam de escolinha e sonhavam ser professoras. Alunos "melhores" querem mais. Procuram a profissão que lhe garantam um futuro, prosperidade, status até. Procuram uma profissão que lhe rendam um bom concurso público, com um salário invejável.
Arrependo-me, confesso, de ter sido essa a profissão que escolhi, porque foi esse o sonho que tive desde os cinco anos de idade. Podia ter sonhado melhor. Poder hoje dar uma vida melhor aos meus filhos, não ter que trabalhar tanto pra sobreviver.
Que salário ainda posso almejar? Nem o que é meu de direito - novo piso salarial do Governo Lula - meu "chefe" não paga. O que fazer? Perder noites de sono, momentos incríveis que poderia passar com meus filhos, perder as suas fases maravilhosas de vida, pra estudar muito. Não vou esperar o tempo passar e envelhecer como tantos colegas, doentes, iludidos e mais pobres ainda. Pobres de esperança. No que se tornaram? O que mudou em suas vidas desde o dia em que começaram a trabalhar? Vou estudar e tentar encontrar um caminho melhor pra minha própria vida.
Quanto aos meus alunos, aos alunos do Brasil, só me resta rezar!
Protesto em meu simples blog, pra deixar registrado, a minha indignação. A minha revolta. A minha vergonha de ter lido essa VERDADE estampada na capa de O Popular. No entanto, ainda resta-me uma pergunta: Que novos alunos se formarão com os novos professores?
Alice Xavier
Nova: Este artigo foi publicado na sessão Carta ao Leitor, Jornal O Popular, do dia 10 de fevereiro de 2010. http://www.opopular.com.br/

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A gente sempre se pega escrevendo sobre o passado. Estamos apegados demais a ele. O futuro é sempre novo. Não sabemos nem se vai chegar. No entanto, estamos sempre com pressa. Com pressa de chegar logo o fim de semana, de chegar logo o dia do aniversário, festas de fim de ano... e o tempo já passa tão rápido... por que então desejá-lo? Brigar com ele?
Páro tudo. Deito na cama. Perco tempo.
Olho o Thiago dormir, boca aberta, risos entre sonhos...
Pego aquelas revistas velhas de receita, monto um caderno, escolho as preferidas (nunca testei nenhuma delas), recorto-as e colo-as, uma a uma.
Procuro aquele vídeo, daquela novela, cena de casamento. Choro de novo.
Reinvento uma manhã inteira... ouço Byork. Não encontrei aquela música que nem lembro o nome.
Na cama, volto a dormir. O Thiago acorda. Enquanto isso, o Guilherme trabalha, O Lipe estuda e a casa está vazia com nosso sono.
Levanto e vou cuidar dos afazeres domésticos. O tempo custou a passar.
De repente... mais uma tarde de trabalho.
Custo explicar o sentido da leitura, a escrever o próprio nome...
Meu nome... qual é??
O tempo me desnuda, ampara-me
O tempo me consome, consola-me
O tempo me destrói, refaz-me
O tempo me tortura, cura-me
A noite chega
Tudo é tão rápido
Olho-me no espelho e não me reconheço
O dia passou depressa. Tenho medo só de pensar...
E amanhã... como será?
Ansiedade... pra quê?
Por que querer tanto o dia de amanhã como se o hoje não tivesse valido a pena.
Mas valeu.
Valeu sentir o vento, trabalhar, rir, viver.
Valeu viajar ouvindo The Doors, sonhar com meus filhos, ensiná-los...
Valeu amar...
Não importa o dia de amanhã.
Nenhum dia como hoje.